Bolha imobiliária testa a receita de transição chinesa

O “canteiro de obras do mundo” chinês diminiu seu ritmo de trabalho. A desaceleração do setor imobiliário colocou mais problemas para os governantes chineses, assim como manteve a inquietação dos mercados sobre sua capacidade de enfrentar o problema sem uma desaceleração mais forte da economia. Os números do quadrimestre da economia da China apontam para baixo e, para piorar as coisas, a inflação também. Em abril, ela foi de 1,8%, a menor desde outubro de 2012. No primeiro trimestre, o país cresceu 7,3% e há prognósticos divergentes sobre se o crescimento se estabiliza por aí ou se ele será bem mais baixo, o que seria uma péssima notícia para a economia global.

O resultado da política contracíclica chinesa para enfrentar a crise de 2008 produziu uma bela bolha de crédito, insuflada principalmente pelo setor imobiliário, mas não só ele. A marcha forçada dos investimentos produziu enorme capacidade ociosa, grandes dívidas – o endividamento total do país atingiu 215% de um PIB de quase US$ 9 trilhões – e o surgimento de um sistema bancário paralelo que se nutre do estatal e que está prestes a naufragar.

Ainda que a burocracia chinesa tenha em mãos meios para debelar os problemas, eles têm se revelado indóceis. O progressivo aperto na oferta, meio clássico de esvaziar a bolha de crédito, deixou na iminência de quebra investidores que apostaram em projetos errados, financiados pelo sistema “sombra”. O governo suavizou o aperto posteriormente, vislumbrando, talvez, que sua continuidade acabasse levando uma montanha de créditos incobráveis para os balanços dos bancos estatais. Desde meados do ano passado, porém, o mercado imobiliário, o flanco mais vistoso e próspero da bolha, começou a fraquejar.

A venda de imóveis recuou 7,8% no primeiro quadrimestre do ano, enquanto que a construção de novas moradias encolheu 22,1%. O desaquecimento do mercado se revela no encalhe de imóveis em cidades como Pequim, onde o estoque seria suficiente para suprir 12 meses de demanda (“Financial Times”, 13 de maio). A capital, porém, não é exceção. Nas cidades de segunda linha, os estoques garantem 15 meses de demanda e, nas de terceira linha, dois anos.

O peso da desaceleração recai sobre o sistema financeiro, oficial e paralelo. Cerca de 20% do total de operações de crédito dos bancos estatais provêem de negócios imobiliários e, mais significativo, 40% dos empréstimos têm como colateral os imóveis. Além disso, boa parte das receitas dos governos regionais é obtida com a venda de terras para projetos imobiliários e o preço delas está caindo. E fatia importante da farta poupança dos chineses se abriga nos imóveis, que tendem a se desvalorizar.

O governo chinês poderá estimular o consumo reduzindo a parcela de entrada mínima obrigatória (30%), enquanto abranda a pressão no crédito, por meio de refinanciamento de dívidas e da redução do depósito compulsório dos bancos, como já fez com o dos bancos comerciais rurais há pouco, ou até lançar mais programas de infraestrutura. Mas não é uma saída desejável e sem efeitos colaterais enfrentar uma bolha de crédito criada por grande pacote de estímulos com um outro pacote de incentivos.

Segundo a Moodys Analytics, 23% do PIB chinês decorre das atividades de construir, vender e mobiliar imóveis. O aperto no crédito se soma a essa retração para reduzir a performance da economia. O financiamento social total em abril, medida mais ampla de crédito, caiu de 16,2% para 15,7%, menor taxa desde janeiro de 2006. A produção industrial cresceu 8,7% no mês ante 2013, o menor ritmo em cinco anos. No mesmo mês, o varejo evoluiu 11,9%, um número invejável, porém o mais baixo desde dezembro de 2008.

Seria possível sair dessa enrascada da maneira convencional se o Partido Comunista chinês não estivesse envolvido em uma vital mudança de rumos da economia, cuja meta é reduzir o peso dos investimentos e das exportações e tornar o consumo e o mercado doméstico fontes do novo dinamismo. Seja qual for o cronograma que os líderes chineses têm na cabeça, é quase certo que ele será retardado pelas dificuldades conjunturais e pela missão de não permitir um pouso forçado da economia. A pior ameaça para a economia global é que a China exporte a deflação decorrente de eventual estouro da bolha imobiliária para o resto do mundo.

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Fonte: Valor Econômico – São Paulo/SP – OPINIÃO – 15/05/2014 – Pág.A12

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