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“Olha aí, vem chegando o ‘Registrão’…”

Des. Ricardo Dip

​Vivemos aqui − a liberdade de fantasiar ainda se permite (só não sei por quanto tempo) − o dia 8 de dezembro de 2018.

​Um pobre homem, Garzo Parenzus Petracco, era da época em que havia na sua terra uma coisa chamada “registro civil das pessoas naturais”. Ali, nesse registro, ele havia depositado o início de sua biografia vital e o evento da morte de seu pai… quando casasse, pensara ele, para ali conduziria a notícia disto… e quando morresse, para lá alguém levaria a infausta comunicação…

​Mas, um dia, estes dados de sua vida pessoal foram remetidos a um grande Cadastro. Tudo em nome da segurança. O antigo registro virou um guichê para recolher informações. Nada mais era confidencial. Nada mais era reservado. Pimba… um clique no teclado do computador e, pronto, sabia-se de toda a vida da vizinhança, da andança da Dona Maria à vingança da Dona Ida… Grandes redes comerciais, bancos, lojas, armazéns de cereais, operadoras de cartões, fabricantes de carros e caminhões, todos passaram a remeter ao pobre Garzo dezenas de mensagens eletrônicas todos os dias.

​Nosso Garzo Parenzus Petracco, certa vez, resolveu comprar um romance de cavalaria, e daí para a frente, não houve hora alguma em que ele não recebesse convites para comprar mais e mais livros cavaleirescos. Os vizinhos passaram a chamá-lo de Rei Arthur… todos sabiam tudo.

​Pobre Garzo Parenzus Petracco −o nome parecerá insólito?−: é ele também oficialmente conhecido por “138.168.179 -dígito 3” (e isto, isto não parece estranho?).

​Nesse dia 8 de dezembro de 2018, ele decidiu telefonar para um PABX do tal Cadastro. Estava querendo falar com sua namorada, a Rosinha (cujo sobrenome eu não sei: resisto à ideia de ir espiolhar os arquivos do Cadastro), Rosinha que também oficialmente é conhecida por ser a “146.789.175 -dígito 5”:

​−​ Alô… é do Cadastro Geral?

​− ​Sim, diga cidadão 138.168.179 -dígito 3.

​−​ Ora… como sabem que sou eu? (indagou, um tanto surpreso… é um ingênuo, em verdade, este Garzo).

​−​ Cidadão, somos o Cadastro Geral… o Cadastro que o senhor, cidadão 138.168.179 -dígito 3, num outro dia, teve a audácia de chamar de “Registrão”, num telefonema que deu à sua namorada 146.789.175 -dígito 5…

​−​ Mas (perguntou espantado!) como sabem que a Rosinha é minha namorada?

​−​ Cidadão 138.168.179 -dígito 3, quem, às vésperas do dia 12 de junho, compraria uma joia, com o cartão de crédito final 745-2, e a mandaria por Sedex (aviso de recebimento 764.389.458) a uma cidadã, se ela não fosse sua namorada?

​−​ Estão a espionar-me? (protestou o “povero” Garzo).

​−​ Não, cidadão 138.168.179 -dígito 3. Estamos garantindo sua segurança. Ontem mesmo…

​−​ Que houve ontem?! (esbravejou o pobrezinho).

​−​ O senhor comprou sua pizza na Soggiorno de seu bairro…

​−​ É verdade! Como o sabem?

​−​ É que nos chamou a atenção… e o alarme dos computadores disparou prontamente… o cidadão 138.168.179 -dígito 3 comprou uma pizza de calabresa artesanal, mas ele sempre pede a pizza romana!

​−​ Mas eu quis mudar… (balbuciou o nosso Garzo).

​−​ Todavia, cidadão, o senhor não avisou nosso Cadastro acerca desta mudança… sempre há risco de ser uma espécie de manobra para a lavagem de dinheiro.

​−​ Não!

​−​ Além disto, outro dia, o senhor comprou uma bicicleta e uma garrafa de vinho pinot noir… mas, cidadão, não consta de nosso cadastro que o escravo, digo, o cidadão 138.168.179 -dígito 3 saiba andar de bicicleta. Além disto, as 20 últimas compras de vinho que o senhor fez foram do primitivo da Puglia… Cidadão 138.168.179 -dígito 3, o senhor está lavando dinheiro?

​− ​Não!

​−​ Saiba que temos aqui um Cadastro Geral: sabemos o que compra e o que vende; se sai de casa ou não sai; se é casado, solteiro, viúvo, divorciado, separado ou mal amado; se tem um imóvel, alguns livros e bicicleta, um par de vasos, um automóvel… se faz dieta; se é corintiano ou palmeirense, atleticano ou cruzeirense; se tem filhos, se tem netos, se tem mulher ou desafetos… Sabemos de tudo: seu e-mail, seu celular, seu recreio e seu labutar… Se vai à Igreja ou ao jogo, esteja sóbrio ou “de fogo”… Enfim, nós somos o Cadastro: reunimos aqui, num único lugar informático, tudo, tudo o que interessa à segurança do cidadão… Se viaja ou não viaja, não há dado que aqui não haja de estar… aqui no nosso Cadastro… o que o senhor chama de “Registrão”…

​−​ Eu só que-que-ria sa-be-ber da Ro-sin-ha… (tartamudeou, apavorado, o pobre 138.168.179 -dígito 3).

​−​ Pois saiba, cidadão, que atitudes como a sua, de achar que existe algo do antigo direito à privacidade, são inimigas da segurança… O senhor é um “segurofóbico”. A cidadã 146.789.175 -dígito 5 vai também ser vigiada daqui por diante. Que é isto, esta mania de ficar defendendo as liberdades?

 

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  1. Ronaldo Aparecido Carreira
    jan 25, 2017 - 07:25 AM

    Parabéns pelo artigo. Brilhante como sempre.
    Não está longe o dia em que todos sairão “chipados”
    da maternidade.
    Vou emoldurar minha certidão de nascimento para
    mostrá-la aos netos.

    Responder

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