HAVANNA

The Washington Post: Mercado imobiliário de Cuba vive prosperidade

Casas estão sendo reformadas depois de décadas de abandono e a liberação de compra e venda trouxe mudanças econômicas e sociais à ilha.

Ao chegar a Havana, cidade de 500 anos, depois de algumas horas e um mojito ou dois, contemplando a vista do oceano e a impressionante arquitetura, os visitantes americanos costumam perguntar: “Posso comprar um pedaço?” A resposta é não. O governo cubano não permite. O governo americano não permite. Ao menos, não por enquanto.

Mas, com os dois países rumando para o reestabelecimento das relações diplomáticas, encerrando décadas de afastamento, não é difícil imaginar o dia em que as forças do mercado global há muito represadas inundarão os decadentes edifícios e mansões dessa cidade. Os cubanos já estão se posicionando para se antecipar à enxurrada.

Três anos depois de Raúl Castro ter posto de lado décadas de dogma habitacional comunista, permitindo que os donos de imóveis vendessem e comprassem propriedades pela primeira vez desde os anos 60, o mercado imobiliário da ilha está se revelando um poderoso motor de mudanças econômicas e sociais.

Em praticamente todas as ruas de Havana, os empreiteiros estão misturando cimento, consertando rachaduras e reformando fachadas emboloradas que não recebem tinta desde a era Brejnev. Nova louça para os banheiros é entregue nas malas dos serviços de frete diretamente dos corredores das lojas Home Depot no sul da Flórida. Os habilidosos eletricistas e encanadores de Havana ganham, em um dia, mais do que um médico recebe por mês.

“Não é apenas a possibilidade de comprar propriedades”, disse Magda Mora, de 39 anos, que voltou a Havana em 2012 depois de 14 anos na Itália e em Miami. “São propriedades que podem ser usadas para negócios.” Magda comprou um duplex de 306m² no bairro de Vedado, reformou o imóvel e hoje vive no andar de cima com a família, convertendo a unidade de baixo numa pequena hospedaria. Há cinco quartos que ela aluga por US$ 35 cada noite, recebendo resenhas positivas no Trip Advisor.

Quem já andou de carro por Havana vê que uma riqueza tremenda foi investida em pedra, mármore e mogno nos anos entre a fundação da república cubana, em 1902, e a ascensão de Fidel Castro, em 1959. Poucas cidades das Américas se comparam a ela. As famílias cubanas de renda alta e média que fugiram para os EUA tiveram seus lares expropriados pelo governo. Muitos deles foram entregues a cubanos mais pobres ou aos caseiros que as famílias ricas deixaram para trás. Os bairros mais exclusivos da cidade se tornaram miscigenados e Havana se tornou mais heterogênea, segundo o arquiteto e historiador Miguel Coyula.

Hoje, muitas dessas famílias estão vendendo o imóvel, descobrindo-se donas de um bem valioso. Mas essa tendência parece estar promovendo uma nova gentrificação da cidade com base em critérios raciais e de classe, principalmente porque os cubanos de pele mais clara têm mais parentes no exterior com dinheiro para investir.

A reforma habitacional promovida por Fidel Castro, nos anos 60, levou à proibição da venda de propriedades e a um decreto segundo o qual nenhum cubano poderia ser dono de mais que uma habitação urbana, ao mesmo tempo convertendo centenas de milhares de inquilinos em proprietários, mas impossibilitados de vender.

Embora os cubanos tivessem autorização para “trocar” casas em acordos que muitas vezes envolviam quantias clandestinas em dinheiro, a ausência de um mercado formal e as restrições do governo à construção de lares privados fizeram piorar a escassez.

O problema é exacerbado pelo aperto na oferta, pois o governo sempre fica aquém da meta na construção de habitações. Mais de 130 mil moradores urbanos vivem em abrigos ou habitações inadequadas, segundo dados do governo. Os migrantes do leste de Cuba, mais pobres, se acomodam em favelas no limiar da cidade ou se reúnem em cortiços decadentes que a prosperidade do mercado imobiliário ainda não alcançou.

Enquanto isso, os cubanos mais velhos, cujos filhos deixaram a ilha, permaneceram em imóveis grandes que eles não tinham capacidade de manter em boas condições.

As forças do mercado estão agora corrigindo esses absurdos, dizem os corretores, permitindo que os cubanos mais velhos optem por lares menores e obtenham o dinheiro de que precisam para viver, enquanto novos investidores transformam propriedades decadentes em hotéis chiques antes que tenha início a invasão de turistas americanos.

No entanto, ainda há restrições importantes. Os cubanos só podem ser donos de uma propriedade na cidade e um imóvel de veraneio. Os titulares da escritura precisam ser cidadãos cubanos ou residentes permanentes, e não estrangeiros. Os negócios quase sempre são fechados em dinheiro e as transações precisam passar por bancos cubanos. As autoridades comunistas também participam do jogo, construindo condomínios de alto padrão para vendê-los a estrangeiros.

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Fonte: The Washington Post

 

 

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